Não deixaram o Fábio nem se despedir

(Divulgação/Cruzeiro)

Mais marcante impossível. É uma noite de quarta-feira, 5 de janeiro de 2022, Nem três dias se completaram direito que o Cruzeiro fez seu aniversário de 101 anos e o atleta com mais jogos, o goleiro com mais defesas e o maior jogador da história celeste comunica sua saída. Não são 17 meses, Fábio estava prestes a chegar a 17 anos na meta do Cruzeiro quase de forma inin terrupta a exceção de três períodos de lesão.

Ele foi o goleiro de todas as glórias que eu vi, de todas as desgraças que eu chorei e de tantas inspirações que tirei para outros pontos da vida além do futebol. Eu tenho 20 anos e não tenho lembrança de outro arqueiro titular no Cruzeiro. Com isso, uma enorme parte de minha formação como cruzeirense e amante do futebol se vai. É meu maior ídolo com uma distância considerável.

Hoje estou na casa onde vivi até os sete anos. Me lembro que a calçada com um degrau que separava o ‘campo’ da ‘grande área’ guardou inúmeras histórias de minha infância com enormes capítulos jogando bola. Nunca fui um primor técnico na linha. No entanto, graças a um mato-grossense que se forjou mineiro, amava guardar uma meta pintada com tinta de sapato preta com o travessão muito mais alto do que aquele Gabriel ousava alcançar. Também tinha o portão de casa que lembrava um arco com as traves mais demarcadas… Eu queria ser ele, defender como ele e ser grande como ele.

Tenho muito claro na cabeça uma época que o Fábio usava um protetor na boca e no mesmo período cheguei a improvisar um com pedaço de EVA. Mais tarde, me mudei de cidade e veio a primeira camisa oficial do Cruzeiro. O ano? 2009. A camisa? De goleiro. De quem? 1 – Fábio. Hoje ela é apenas um artigo guardado numa gaveta de cômoda e que me rende um sorrido em todas as vezes que a vejo. Ah, e não para por aí, cheguei a ter luvas de goleiro por causa dele. Não somente por isso, mas também por isso me dói tanto.

Nunca fui evangélico, só que anos mais tarde me apareceu um testemunho do Fábio como recomendação no YouTube. Não faço ideia de quantos livros a Bíblia tem e a única citação que lembro é o Apocalipse 3:20 citado por Fábio. “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta; entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo”. Pela minha memória, foi em 2016 ou 2017. As temporadas seguintes foram de intensa alegria até 2019.

Fábio ganhou muitos títulos, muitos prêmios e quase todos eu acompanhei de longe. Na verdade, a minha única oportunidade foi num julho de 2018. A primeira e única que pude entoar junto a 40 mil – P*** *** *****, É O MELHOR GOLEIRO DO BRASIL, FÁBIO. Não esperava que fosse a última.

Dos crimes que a iniciativa privada pode cometer, o de ignorar a história pelo lucro é um dos mais graves. Meus medos no projeto para o Cruzeiro virar SAF eram claros. Com um dono, o gráfico importa mais que o sentimento. Não há espaço para um ídolo e nem para um menino que se inspira nele. A associação se importa com quem a constrói. A empresa não.

Perto dos mil jogos, das mil vezes, das minhas lágrimas com a loucura que eu faria para estar lá. Foram 976 jogos e a despedida não foi com um Mineirão lotado ou com o acesso fora de casa. Não houve despedida. Nem para mim e nem para ele. Não pude ouvir um FÁAAAAAAAAABIOOO sabendo que era o último. Como você citou, ídolo, gratidão e dor.

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