O tetracampeonato na chuva ouvido pelo rádio

O Cruzeiro tem dez títulos nacionais, são seis Copas do Brasil e quatro Campeonatos Brasileiros. Esses últimos conquistados em 1966, 2003, 2013 e 2014. Hoje, neste dia 23 de novembro de 2020, o tetracampeonato brasileiro faz seu sexto aniversário. Atualmente, muito distante das glórias, a Raposa de Minas amarga uma briga contra o rebaixamento na Série B e tenta se reconstruir às vésperas do centenário que acontece em 2021. Porém, é dia de lembrar título e não tristeza.

Como o título já indicou, o relato vai se passar no temporal belo-horizontino naquele domingo de seis anos atrás e nas ondas do rádio. Quem vos escreve tem 19 anos hoje, ou seja, tinha 13 anos à época. Eu comecei a acompanhar o Cruzeiro com mais frequência em 2013 e após sete anos, a quantidade de partidas que eu não acompanhei está na casa das unidades. Nas duas primeiras conquistas como torcedor, muitas de minhas memórias se passam pelo rádio.

Em 2013, quase toda a campanha foi ouvida por mim na emoção e intensidade da voz de um locutor. No ano seguinte, passei para a televisão, mas a ironia do destino vem mais tarde. O time de Marcelo Oliveira que tinha Fábio, Henrique, Ricardo Goulart e Everton Ribeiro como nomes centrais foi quase impecável ao longo de 38 rodadas. Só perdeu seis vezes, duas para o Atlético Mineiro, duas para o Corinthians, uma para o São Paulo e uma para o Flamengo. Empatou outras oito. Venceu 24 vezes. 80 pontos que deram a melhor campanha dos pontos corridos até aquele ano.

Se no ano anterior, por um detalhe, o título não foi comemorado no Mineirão, 2014 fez questão que a campanha fosse coroada em Belo Horizonte. O Cruzeiro só dependia dele mesmo, era vencer para coroar o tetracampeonato. Porém, apesar do maior aproveitamento que o tricampeonato em 2013, a campanha de 2014 foi mais difícil. Exemplo máximo foi a chuva que deixou o gramado do Mineirão parecendo a Lagoa da Pampulha no jogo do título contra o Goiás na 36ª rodada.

A expectativa de presenciar a história por parte da torcida era maior que a quantidade de milímetros de chuva no dia. Mineirão lotado. Eu, com 13 anos, vivendo a mais de 1.200 de distância, assisti ao jogo pela televisão. O primeiro gol de Ricardo Goulart de cabeça aos 12 minutos abriu o caminho, mas numa jogada de falta, Samuel empatou para o Esmeraldino.

Enquanto o empate se arrastava ao longo dos minutos, segurado pelo nervosismo cruzeirense e pela água no gramado, meu sinal de televisão caiu. A chuva que estava na região da Pampulha, também se estendeu para minha casa. Se eu não poderia estar sob o céu mineiro, ele veio até mim. O que restou para acompanhar o jogo foi o rádio. Eu nunca abandonei o Cruzeiro e esse meio de comunicação foi de suma importância para isso.

Seríamos campeões com um gol a mais. Nada mais coincidente que Everton Ribeiro, camisa 17, aos 17 do segundo tempo, fazer o gol do título. Eu não vi, não precisava ver, apenas ouvir. Pelo que me lembro, peguei um celular e entrei no link da rádio, segundos depois, a bola morreu no fundo do gol. Cruzeiro 2 a 1 e foi só esperar mais meia hora. Seis anos depois, eu ainda consigo sentir o barulho da torcida comemorando, o narrador gritando e aquele menino de 13 anos em êxtase.

Foto de capa: Photo by Pedro Vilela/Getty Images

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