Relatório aponta preconceito racial em comentários nas principais Ligas Europeias

De acordo com o relatório de um estudo inovador, realizado na Inglaterra, o viés racial é um problema evidente nos comentários do futebol inglês.

Na constatação realizada, foi apontado que jogadores de pele mais clara são frequentemente elogiados pela inteligência e qualidade técnica. Enquanto os jogadores de pele mais escura, por sua vez, são limitados à sua força física. O estudo foi realizado pela empresa dinamarquesa RunRepeat, sendo o primeiro a concluir que a mídia do futebol fala de maneira diferente sobre os jogadores, de acordo com o seu tom de pele.

Relatório

Foram analisados mais de 2 mil declarações de comentários, em 80 jogos diferentes, na Premier League, Seria A, La Liga e Ligue 1. Em parceria com a The Professional Footballers ‘Association, a RunRepeat conluiu que ”jogadores com tom de pele mais escuro eram significativamente mais propensos a serem reduzidos a suas características físicas ou habilidades atléticas – nomeadamente ritmo e potência – do que jogadores com jogadores de tom de pele mais claros”.

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Foto: Marc Atkins/Getty Images

De acordo com os números do relatório:

  • 62,60% dos comentários relacionados à inteligência foram direcionados a jogadores com o tom de pele claro;
  • 63,33% das críticas em relação à inteligência foram relacionadas a jogadores com o tom de pele mais escuro;
  • Quando os comentaristas falam sobre velocidade, há uma probabilidade 3,38 vezes maior de se referir a um jogador com o tom de pele mais escuro;
  • Quando os comentaristas falam sobre questões técnicas e ética no trabalho, 60,40% dos elogios são direcionados a jogadores com o tom de pele claro.

“Para lidar com o impacto real do racismo estrutural, precisamos reconhecer e lidar com o preconceito racial”, afirmou Jason Lee, executivo de igualdade da PFA. “Este estudo mostra um viés evidente na forma como descrevemos os atributos dos jogadores de futebol com base na cor da pele”, concluiu.

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Foto: Getty Images

A pesquisa durou cerca de seis meses e concentrou-se em 20 jogos de cada uma das principais ligas europeias na temporada 2019/20. Contudo, foram analisados apenas comentários em inglês, para que não ocorressem erros por conta de traduções imprecisas. Foram analisados os comentários de sete emissoras: Sky Sports, BT Sport, Free Sport, beIN Sports, TSN, NBCSN e ESPN.

Critérios de avaliação

O RunRepeat estabeleceu o foco no tom de pele, por considerar que o foco na raça levaria a erros de identificação. Cerca de 643 jogadores foram analisados e cada um recebeu um valor de tom de pele de 1 a 20, com base nos dados atribuídos no banco de dados do Football Manager 2020, a versão mais recente do popular jogo de computador. Jogadores avaliados de 1 a 11 foram classificados como ”tom de pele mais claro”, enquanto de 12 a 20, como ”tom de pele mais escuro.

Totalizaram-se 2074 declarações, divididas em 11 categorias diferentes. As categorias referem-se às diferenças de elogios, críticas e referências à inteligência, qualidade, trabalho duro, poder e velocidade.

O relatório afirma que “jogadores com tom de pele mais claro devem receber a mesma proporção de comentários sobre, por exemplo, sua inteligência ou ética de trabalho que jogadores com tom de pele mais escuro”. E que ”o fato de esse não ser o caso em um grande tamanho de amostra, indica que há um viés na maneira como a mídia discute os players com base na cor de sua pele. ”

Foto: Getty Images

“Os comentaristas ajudam a moldar a percepção que temos”, disse Lee, ex-Nottingham Forest, Charlton e Watford. “É importante considerar o alcance dessas percepções e como elas afetam os jogadores quando terminam sua carreira de jogador. Se um jogador tem aspirações de se tornar treinador ou gerente, é uma vantagem injusta dada aos jogadores que os comentaristas costumam chamar de inteligentes e diligentes, quando essas opiniões parecem resultar de preconceito racial?”, questionou.

Posicionamento das emissoras

A Sky Sports já está realizando sessões com seus apresentadores, repórteres e comentaristas, nas quais é discutida a importância do critério usado para descrever atletas de diferentes origens. Além disso, de forma conjunta com o PFA, também foram realizadas sessões extras com relação ao uso da equipe de idiomas ao discutir, especialmente, quaisquer histórias e questões relacionadas ao Black Lives Matter. Contudo, as demais emissoras, até o momento, ainda não se manifestaram sobre o estudo.

O relatório completo realizado, pode ser conferido no link.

Foto de capa: Clive Rose/Getty Images