Futebol Sul-Americano

Saudade do nosso fútbol

O futebol pode estar voltando lentamente em muitas canchas pelo mundo afora. Das principais ligas da Europa, somente uma foi encerrada e a Bundesliga já retornou. Outras três começam a se preparar. Elas voltarão logo, nós não. Pelo menos por hora. Mas são apenas os jogos que voltam. Se tem algo que o coronavírus nos tirou foi o abraço do gol, o beijo na pessoa amada após a comemoração e o canto ecoado por todos os lados do estádio. Perdemos isso, esperamos que não por muito tempo.

Não há nada mais triste que o silêncio de uma cancha que poderia ter 40, 50, 60 mil pessoas. Perdemos a essência. Parece que o futebol se torna o que muitos desentendidos dizem: “22 jogadores atrás de uma bola”. No entanto, é necessário pelo momento que vivemos. A cancha vazia, mas o amor da torcida está em sua segunda casa.

Tantas torcidas cantam para que o futebol, essa droga viciante, nunca falte. Pedimos a Deus por isso. Só queríamos que chegasse o domingo para tomar um par de vinhos. Quantos torcedores e torcedoras não queriam sair neste momento para ir ao estádio e voltar chorando de tristeza ou extasiado com a alegria da vitória? Ou em outro cenário, tentando justificar um empate sem gols, que não trouxe prazer para ninguém. Futebol precisa de gol e o tento precisa da torcida para comemorar.

Cada dia que a pandemia ‘atrasa’ a volta do fútbol é um dia triste para os torcedores, especialmente, os mais apaixonados, caso dos sul-americanos. Futebol aqui não é esporte, é religião. A maioria é ensinada a amar um clube desde criança. Além da lástima de não ter essa ‘missa’ de todo domingo, quarta, segunda, sábado, quinta e por aí vai, sabemos que alguns de nossos parceiros de arquibancada não estarão lá novamente. Eles não morreram pela enfermidade que ninguém quer se curar, a paixão pelo clube, e sim por algo que não vemos, um vírus.

É triste saber que não pudemos dar o último abraço, do último gol, que não sabíamos que seria o final. Para muitos não foi, é claro. Só que quando morre um hincha, a hinchada inteira sofre. Como disse, é uma religião e somos irmãos e irmãs e não apenas números como muitos tratam.

A saudade não é só do nosso fútbol sul-americano e sim de quem o fez ser el más grande do mundo. A história nossa está aqui, a paixão nossa está aqui. Um gol comemorado em outro continente não terá o mesmo amor da bola na rede aqui. Voltaremos em algum momento a lotar nossas casas para torcer pelos nossos e reviver as memórias dos que foram.

Foto de capa: Reprodução/América TV

Gabriel Neri

Amante de uma boa retranca uruguaia enquanto escuto uma MPB tomando uma cerveja argentina. Valorize o nosso.

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